Durante muito tempo, utilizar tecnologia na escola significou, essencialmente, levar para a sala de aula ferramentas capazes de transmitir conteúdos com mais velocidade. Um vídeo substituía uma explicação oral, uma apresentação digital substituía o quadro e uma pesquisa na internet substituía parte da consulta aos livros. A educomunicação propõe uma mudança mais profunda: não basta utilizar meios de comunicação; é preciso criar ambientes educativos em que os estudantes também possam produzir, interpretar, compartilhar e discutir informações.
Essa perspectiva ganha especial relevância no ensino de Ciências. Afinal, ciência não é apenas um conjunto de respostas prontas. É uma forma de observar fenômenos, formular perguntas, levantar hipóteses, investigar evidências, construir explicações e comunicar conhecimentos.
O conceito de educomunicação situa-se justamente na interface entre comunicação e educação. No levantamento realizado por autoras que analisaram produções acadêmicas brasileiras sobre mídia e Educação Ambiental entre 2010 e 2018, a educomunicação aparece como uma das principais categorias encontradas. O estudo identifica práticas envolvendo jornalismo, audiovisual, recursos tecnológicos e produção de mídia como estratégias educativas.
Comunicação também é uma forma de aprender
A contribuição de Ismar de Oliveira Soares e Daniele Próspero ajuda a compreender por que a produção midiática pode ultrapassar a função de simples ferramenta. Em sua análise de experiências educomunicativas, os autores destacam a participação dos estudantes na escolha dos temas, na produção dos conteúdos, na revisão e no aprimoramento das próprias produções. O processo de criação, portanto, passa a integrar o processo de aprendizagem.
Essa concepção muda a pergunta feita ao professor. Em vez de perguntar apenas “qual tecnologia posso usar para ensinar este conteúdo?”, podemos perguntar: “o que meus alunos podem investigar e comunicar a partir deste conteúdo?”
Um tema de Ciências sobre biodiversidade, por exemplo, pode originar um podcast produzido pelos estudantes, uma reportagem sobre espécies encontradas no bairro, um vídeo sobre polinizadores, uma exposição fotográfica ou um jornal digital sobre problemas ambientais locais.
A tecnologia deixa de ser o centro da atividade. O centro passa a ser a investigação.
O aluno como produtor de conhecimento
Essa mudança dialoga diretamente com as pesquisas de Demoly e Santos sobre aprendizagem e Educação Ambiental. As autoras observaram experiências em que estudantes e professores produziram fotografias, narrativas e conversações para observar o próprio fazer e construir novos entendimentos sobre o ambiente.
Em uma das experiências descritas, a fotografia não foi utilizada apenas como registro da realidade. Ela funcionou como dispositivo para ampliar o olhar e produzir conhecimento. Os participantes fotografavam, analisavam as imagens e conversavam sobre aquilo que haviam produzido.
É uma diferença importante.
Registrar uma árvore é uma atividade.
Investigar por que aquela árvore existe naquele lugar, fotografá-la, pesquisar sua importância ecológica, entrevistar moradores, produzir uma reportagem e discutir as transformações daquela paisagem é outra experiência pedagógica.
A segunda coloca o estudante dentro do processo de produção do conhecimento.
Educomunicação e Educação Ambiental
No campo da Educação Ambiental, essa abordagem é particularmente potente porque os problemas ambientais não pertencem a uma única disciplina.
Desmatamento envolve Biologia, Geografia, História, Economia e política pública. Poluição dos rios envolve Química, Biologia, saneamento, saúde e organização territorial. Mudanças climáticas envolvem Física, Ciências da Terra, Biologia, tecnologia, economia e comportamento social.
Os estudos reunidos no trabalho de Moreira defendem justamente a integração entre escola, comunidade e ambiente natural, utilizando problemas como base da aprendizagem e articulando perguntas, fotografias e outras mídias produzidas pela comunidade escolar.
Essa perspectiva também aparece na literatura sobre Educação Ambiental. Fragoso e Nascimento argumentam que o ensino precisa aproximar o conhecimento científico das problemáticas concretas e superar a fragmentação disciplinar, articulando conhecimentos científicos, saberes dos estudantes e realidade local e global.
Como aplicar a educomunicação em Ciências?
Uma sequência didática pode seguir cinco movimentos:
1. Observar: escolher um problema ou fenômeno presente no cotidiano.
2. Perguntar: formular questões que não tenham respostas imediatas.
3. Investigar: buscar dados, realizar experimentos, entrevistar pessoas e consultar fontes confiáveis.
4. Produzir: transformar os resultados em podcast, vídeo, reportagem, infográfico, exposição, blog ou outro produto comunicativo.
5. Compartilhar e revisar: apresentar a produção, receber comentários, corrigir informações e refletir sobre o processo.
Esse último movimento é fundamental. Soares e Próspero destacam a importância da revisão e da avaliação das produções dos estudantes. Na perspectiva educomunicativa, o processo importa tanto quanto o produto final.
Ciência também precisa aprender a conversar
A educomunicação não transforma o professor em mero operador de ferramentas digitais. Ao contrário: aumenta sua responsabilidade como mediador.
O professor continua sendo responsável por orientar a investigação, verificar informações, contextualizar conceitos científicos, discutir ética, autoria e qualidade das fontes.
A diferença é que o estudante deixa de ocupar exclusivamente a posição de receptor.
No ensino de Ciências, isso significa formar não apenas quem sabe ciência, mas quem consegue ler informações científicas, questioná-las, produzir conhecimento e comunicá-lo socialmente.
E talvez essa seja uma das competências mais importantes para uma sociedade inundada de informação: não apenas saber acessar conteúdos, mas saber o que fazer com eles.
Referências bibliográficas
CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2012.
DEMOLY, Karla Rosane do Amaral; SANTOS, Joceilma Sales Biziú dos. Aprendizagem, educação ambiental e escola: modos de agir na experiência de estudantes e professores. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 21, 2018.
MOREIRA, Luiz Fernando Costa. Pelos caminhos da Educação Ambiental: cultivando práticas e saberes, integrando escola e natureza. Rio de Janeiro: UNIRIO, 2019.
SOARES, Ismar de Oliveira; PRÓSPERO, Daniele. Manuais de Educomunicação: subsídios das organizações sociais e da política pública. Comunicação & Educação, ano XIX, n. 1, 2014.

